quarta-feira, 23 de abril de 2014

Tipos de Umbanda



•  Umbanda Branca: O termo pode ter surgido da definição de Linha Branca de Umbanda usada por Leal de Souza e adotada por tantos outros. A idéia era de que a Umbanda era uma “Linha” do Espiritismo ou uma forma de praticar Espiritismo, na qual a Linha Branca se divide em outras Sete Linhas. Ao afirmar a Umbanda como  Branca  subentende-se  muitas  coisas, entre  elas  que  possa  haver  outras  umbandas,  de  outras  cores  e “sabores”. Mas a questão de ser branca está muito mais ligada ao fato de associar ao que é “claro”, “limpo”, “leve” ou simplesmente ausente do “preto”, “escuro” ou “negro” – há um preconceito subentendido – afinal é uma Umbanda mais “branca” que “negra”, mais européia que afro e,  porque não, mais Espírita. Geralmente usa-se esta qualificação, “Umbanda Branca”, para definir trabalhos de Umbanda com a ausência do que chamamos de “Linha da Esquerda”, para Leal de Souza uma “Linha Negra”. Ainda hoje muitos se identificam desta forma e geralmente o usam como um “recurso” para “livrar-se” do preconceito de outros... como a dizer: Sou Umbandista, mas da Umbanda Branca – como quem afirma pertencer à “Umbanda boa”. Não há uma “Umbanda Negra” ou uma “Umbanda Ruim”, toda Umbanda é Boa. 

•  Umbanda  Pura:  Ao  propor  o  Primeiro  Congresso  de  Umbanda  em  1941  o  grupo  que assumiu  esta responsabilidade esperava apresentar uma “Umbanda Pura” (“desafricanizada” e “orientalizada”), praticada pela classe média no Rio de Janeiro. É a Umbanda praticada pelo “grupo fundador da Umbanda”  ou simplesmente  o  grupo  intelectual  carioca  que  lutou pela  legitimação  da  Umbanda,  criando  a  Primeira Federação  Espírita  de  Umbanda  do Brasil,    Primeiro  Congresso  Brasileiro  do  Espiritismo  de  Umbanda  e  o Primeiro Jornal de Umbanda. Este grupo pretendia uma “codificação” da Umbanda em seu estado mais puro de ser. Embora a ideia de uma “Religião Pura” sempre será algo a ser questionado, independente de qual tradição lhe  tenha  dado  origem. Por trás de uma cultura sempre há outras culturas que lhe deram origem, sucessivamente desde que o Homem é homo sapiens também é homo religiosus.  

•  Umbanda Popular: É a prática da religião de Umbanda sem muito conhecimento de causa, sem estudo ou interesse em entender seus fundamentos. É uma forma de religiosidade na qual vale apenas o que é dito e ensinado de forma direta pelos espíritos. O único conhecimento válido é o que veio de forma direta em seu próprio ambiente ritualístico. Não se costuma fazer referências a outras filosofias ou justificar suas práticas de forma “intelectualizada”. Eximindo-se  de  auto explicar-se  reforçam  a  característica  mística  da  religião,  em que, independente de “racionalizações” a prática se sustenta devido à quantidade de resultados positivos alcançados.  Podemos  dizer  que  os  adeptos  muitas  vezes  não  sabem  ou  têm  certeza  de como  as  coisas funcionam,  mas  sabem  que  funcionam.  É  aqui  que  muitas  vezes  nos deparamos  com  médiuns  que  afirmam, sobre  a  Umbanda,  que  não  sabem  de  nada  o que  estão  fazendo,  mas  que  seus  guias  espirituais  (caboclo  e outros) sabem e isto lhes basta. Enfim para nós que acreditamos no estudo dentro da religião é muito difícil abordar um seguimento que não se interesse pela leitura, embora se deva reconhecer, para não incorrer ao erro, que muitos estudam e conhecem muito das realidades espirituais que nos cercam e ainda assim preferem manter-se junto a uma forma pura de contato espiritual. 

•  Umbanda Tradicional: Esta qualificação serve tanto para identificar a “Umbanda Branca”, “Umbanda Pura” ou “Umbanda Popular”. Que são as formas mais antigas, mais conhecidas e mais populares de praticar Umbanda, muito embora este perfil esteja mudando. Creio que hoje os terreiros que se adaptaram para uma linguagem mais jovem,  mais intelectualizada e racional estão em franco crescimento,  na medida em que no local de desinformação e/ou bagunça a Umbanda ainda vai secar. E neste mesmo solo vai ressurgir, nas novas gerações, que quando crianças, em algum momento, visitaram um terreiro. Estas crianças de ontem, adultos de  hoje,  podem  nos  dizer  o  quanto  foi  importante  o  trabalho  da  linha  das crianças  para  a  multiplicação da religião.  Tantos  se  perguntam  como  criar cursos para as crianças na Umbanda, como um “catecismo” de Umbanda, ou umbanda para crianças, preocupados em como preparar e ensinar religião a nossos filhos. Se os terreiros mantivessem um trabalho periódico com a incorporação das crianças, bastava que este se torne o dia de nossos  filhos  na  Umbanda,  e  que  nesse  dia  nossos  filhos  aprenderiam  sobre  Umbanda direto com  estas entidades. A curiosidade levaria nossos filhos a questionar e querer aprender mais sobre a Religião... Portanto, a ideia de estudar Umbanda está na base de crescimento e multiplicação da mesma. 

•  Umbanda  Esotérica  ou  Iniciática:  É  uma  forma  de  praticar  a  Umbanda  estudando  os fundamentos ocultos, conhecidos apenas dos antigos sacerdotes egípcios, hindus, maias, incas, astecas etc. O conhecimento esotérico, ou seja, fechado e oculto dos arcanos sagrados, é desvelado por meio de iniciações. 

•  Umbanda Trançada, Mista e Omolocô: São nomes usados para identificar uma Umbanda praticada com influência maior dos Cultos de Nação ou do Candomblé Brasileiro onde se combina os fundamentos e preceitos oriundos  das  culturas  africanas  com  as  entidades  de Umbanda. Podem-se  ter  os  tradicionais  rituais  de Camarinha,  Bori,  Ebós  e  oferenda animais  com  seus  respectivos  sacrifícios.  Muitos  chamam  esta  variação  de Umbandomblé

•   Umbanda  de  Caboclo:  É  uma  variação  de  Umbanda  onde  prevalece  a  presença  do caboclo,  muitas vezes acreditando que a Umbanda é antes de tudo a prática dos índios brasileiros revista pela cultura moderna e doutrinada com conceitos que foram sendo absorvidos com o tempo. •  Umbanda de Jurema: No nordeste existe um culto popular chamado Catimbó ou Linha dos Mestres da Jurema,  que  combina  a  cultura  indígena  com  a cultura  católica,  somando  valores  da  magia europeia e  de quando  em vez  algo  da  cultura afro.  O  principal  fundamento  é  o  uso  da  Jurema  Sagrada,  como  bebida  e também misturada no fumo, que vai ao fornilho do tradicional cachimbo, também chamado de “marca”, feito de Jurema ou Angico. As entidades que se manifestam são chamadas de Mestres e da Jurema. Umbanda herdou a  manifestação  do  Mestre  Zé  Pelintra,  que  pode vir  como  Exu,  Baiano,  Preto-Velho  ou  Malandro.  Quando  se combinam os  fundamentos de  Umbanda  e  Catimbó  temos  esta  modalidade,  que  pode  ser  uma  Umbanda regional de Pernambuco ou praticada de forma intencional pelo umbandista que se interessou pela Jurema e descobriu a Linha de Mestres dentro de sua Umbanda.

•  Umbandaime: O Santo Daime é uma religião nativa do Amazonas, é uma variação da Ayuasca, que é um  chá  preparado  com  duas  ervas  de  poder,  o  cipó  Mariri  e  a  folha  da Chacrona.  De  tanto  ter  visões  de entidades de Umbanda e Orixás em rituais do Daime é que alguns grupos de umbandistas passaram a praticar Umbandaime, ou seja, trabalhos de Umbanda ingerindo o Daime ou rituais de Ayuasca, para se comunicar com as entidades de Umbanda. A Umbanda em si não tem em seus fundamentos o uso de bebidas enteógenas, além dos  tradicionais  café, cerveja, vinho, “pinga”, batida de coco e outros que servem apenas como “curiador” (elemento  usado  para  potencializar  alguma  ação  espiritual  ou magística),  cada  linha  de  trabalho  tem  sua “bebida-curiadora”, no entanto nem a bebida nem o fumo são carregados  de  erva  que  induza  o  estado  de transe. A própria bebida deve ser  controlada.  Podem,  no entanto ser  consideradas bebidas de poder  como o “vinho da jurema”, no entanto a bebida não é o centro do ritual, apenas um elemento auxiliar. No caso do Daime,  este está no centro do culto,  o poder  que se manifesta por  meio do chá é que conduz o adepto. Na Umbanda quem conduz o trabalho são os espíritos guias, com daime ou sem daime.  

•  Umbanda  Eclética:  Chama-se  de  Eclética  a  Umbanda  que  mistura  de  tudo  um  pouco fazendo  uma bricolagem  de  Orixás  com  Mestres  Ascensionados  e  divindades  hindus  por exemplo.  Recorrem à conhecida Linha  do  Oriente  para  justificar  a  presença  de  tantos elementos  diferentes  do  Oriente  e  Ocidente  junto  ao esoterismo, ocultismo e misticismo.

 •  Umbanda  Sagrada  ou  Umbanda  Natural:  Quando  começou  a  psicografar  e  dar palestras,  Rubens Saraceni sempre fazia questão de se referir à Umbanda como Sagrada. Não havia intenção de criar uma nova Umbanda,  apenas  ressaltar  uma  qualidade  inerente  à mesma.  Na  apresentação  de  seu  primeiro  título doutrinário Umbanda – O Ritual do Culto à Natureza, publicado em 1995, afirma que o livro em questão guarda uma  coerência  bastante grande,  o  de  trilhar  num  meio  termo  entre  o  popular  e  o  iniciático,  ou  entre  o exotérico e o esotérico. Já no Código de Umbanda, no capítulo Umbanda Natural, cita: Umbanda Astrológica, Filosófica,  Analógica,  Numerológica,  Oculta,  Aberta,  Popular,  Branca, Iniciática,  Teosófica,  Exotérica  e Esotérica.  Para então afirmar  que:  Natural é a Umbanda regida pelos Orixás, que são senhores dos mistérios naturais, os quais regem todos os polos umbandistas aqui descritos. Muitos optam por substituir a designação de “Ritual de Umbanda Sagrada”, dada à Umbanda Natural. Fica  claro  que  para  o  autor  a  Umbanda  é  algo natural e sagrado, adjetivos que se aplicam ao todo da Umbanda, e não a um segmento em particular. No livro As  Sete  Linhas  de  Umbanda volta a citar as várias “umbandas” e comenta que na verdade, e a bem da verdade, tudo são segmentações dentro da religião Umbandista [...]. Ainda assim, sem a intenção de criar uma nova segmentação dentro do todo, trouxe muitos temas novos e novas abordagens para outros tantos, criando toda uma Teologia de Umbanda. Seus conceitos se expandiram muito rapidamente assim como a popularidade de títulos como O Guardião da Meia Noite e Cavaleiro da Estrela da Guia. Sua forma de apresentar, entender e explicar a Umbanda ficou identificada ou rotulada de Umbanda Sagrada. Palavra que para este autor engloba toda a Umbanda, como um Todo também chamado de Umbanda Natural. 

•  Umbanda  Cristã:  A  Umbanda,  fundada  no  dia  15  de  Novembro  de  1908,  tem  no Caboclo  das  Sete Encruzilhadas a entidade que lançou seus fundamentos básicos, logo na primeira manifestação esta entidade já esclareceu  que  havia  sido,  em  uma  de  suas encarnações,  o  Frei  Gabriel  de  Malagrida,  um  sacerdote  cristão queimado na “Santa Inquisição”, por ter previsto o terremoto de Lisboa, e que posteriormente nasceu como índio no Brasil.  Ao  dizer  qual  seria  o  nome  do  primeiro  templo  da  religião,  Tenda  Espírita  Nossa Senhora  da  Piedade, porque “assim como Maria acolheu Jesus da mesma forma a Umbanda acolheria seus filhos”, já dava uma diretriz cristã à nova religião. Há um conto sobre o Caboclo das Sete Encruzilhadas que diz ter sido chamado por Maria, Mãe de Jesus, para semear a nova religião.  Todo  trabalho  e  doutrina  de  Zélio  de  Moraes  têm  este  perfil  cristão, subentendendo  Umbanda  Cristã, antes de ser “Umbanda Branca” ou “Umbanda Pura”, outros adjetivos que já foram associados a sua forma de praticá-la. Jota Alves de Oliveira escreveu um título chamado Umbanda Cristã e Brasileira, no qual encontrarmos a citação abaixo: “A  Orientação  Doutrinária  do  evangelizado  Espírito  do  Caboclo  das  Sete Encruzilhadas  nos  levou  a considerar  e  historiar  seu  trabalho  enriquecido  das  lições  do evangelho  de  Jesus,  com  a  legenda:  Umbanda Cristã e Brasileira.”  Outro elemento que endossa a qualidade cristã da Umbanda é o arquétipo dos Pretos e Pretas-velhas, são ex-escravos batizados com nomes católicos e que trazem muita fé em Cristo, nos Santos e Orixás. As  qualidades  cristãs  e  a  presença  dos  santos  católicos  confortam  e tranqüilizam quem entra  pela primeira vez em um templo umbandista, muito embora não se limite a adornos e sim a uma presença espiritual dos mesmos. 

Qualificar ou não qualificar?

 Quase  todos  os  assuntos  doutrinários  e  teológicos  da  Umbanda,  quando  aprofundados, criam  polêmicas pelo  fato  de  nos  encontrarmos  em  uma  religião  nascente,  ainda  em formação,  que  em  muito  lembra  o cristianismo primitivo com suas divergências internas. Vejamos a questão de Cristo na Umbanda, na qual para um ex-católico Cristo é Deus, para um ex-espírita Cristo é um mestre ou irmão mais velho da humanidade, já um ex-muçulmano vê em Cristo um profeta. Este é um  dos  exemplos  pelos  quais  surgem  as  Umbandas,  outro seria  o  fato  de  sua  constante  evolução  e transformação.  A  Umbanda  ainda  possui  esta flexibilidade,  não  impõe,  antes  aceita  as  diferentes  formas  de interpretar os mistérios de Deus. Ali  está  uma  boa  parte  dos fundamentos  da  Umbanda,  seu  ritual  é  aberto  ao aperfeiçoamento constante... E por que isso? Simples: tudo o que as grandes religiões castram nos seus fiéis o ritual umbandista incentiva nas pessoas que dele se aproximam [...]. 

 Fica  fácil  entender  que  as  formações  religiosas  anteriores  influenciam  o  ponto  de  vista do  umbandista gerando seguimentos, assim como suas áreas de maior interesse cria todo um campo a ser explorado dentro da própria  Umbanda,  como  ferramenta  para  alcançar  certos mistérios  da  criação. No  entanto, a  Umbanda  não pode  ser  contida,  ou  apreendida  no seu  todo  por  quem  quer  que  seja.  O  mais  que  alguém  poderá  conseguir será captar partes desse todo.   Por mais válidas que sejam as segmentações, por mais que se auto afirmem ser “a verdadeira” Umbanda ou a “Umbanda Pura”, nenhuma destas “umbandas” dá conta do TODO que é Umbanda.  Particularizar, segmentar, é reduzir, para entender o todo há de se buscar um “mirante” privilegiado, no qual se possa vislumbrar todas as umbandas e “A” Umbanda ao mesmo tempo. Pela “parte” não se define o “todo”, mas pela “unidade” se busca uma “essência”, um fundamento e base. No  fundo  é  possível  praticar  Umbanda, Simplesmente,  livre  de  qualificações,  adjetivos,  atributos  ou atribuições. Basta dizer-se umbandista, e quando perguntarem: “- De que Umbanda você é?” É mais do que suficiente responder apenas:  “- Umbanda.”  Da  mesma  forma  é  possível  a alguém  ser  cristão independente  de  Catolicismo,  Protestantismo, Luteranismo,  Metodismo,  Calvinismo, Pentecostalismo,  mas  não  é possível  negar  que  existam  diferentes vertentes dentro do Cristianismo, e da mesma forma com a Umbanda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário